Capítulo 9
A Costa de Otataral: Uma Garota Reconstruída Pelo Luto
Agora a história volta para o mar, para o navio Silanda e para Felisin. É aqui que o enredo deixa de ser sobre exércitos e passa a ser sobre o que a sobrevivência faz com alguém por dentro. Se você quer entender a verdadeira essência deste livro, ela está aqui.
O Silanda está fugindo pelos Labirintos quando uma fenda na própria realidade — um trecho inundado de Kurald Emurlahn, o reino despedaçado que já foi governado pelos Tiste Edur — começa a destruir o navio. Surgem os T'lan Imass, o antigo exército de mortos-vivos preso a um pacto do Primeiro Império, liderados por uma Moldadora de Ossos chamada Hentos Ilm. Entre eles está um guerreiro chamado Legana Breed. Ele se sacrifica para selar a fenda — um ato sem alarde, apenas um velho soldado imortal escolhendo deixar de existir para que estranhos continuem vivendo. Antes de ir, ele entrega a sua espada, mais antiga que a maioria das nações, ao fuzileiro Stormy. E, como se não bastasse, um monstruoso dragão morto-vivo — um Soletaken, capaz de se transformar numa única fera gigante em vez de um bando — força o navio a passar pelo resto da fenda. Soletaken e D'ivers são as duas faces de uma mesma maldição antiga: alguns viram uma criatura enorme, outros se fracionam em centenas de seres pequenos, como ratos, aranhas ou corvos. De qualquer forma, a forma animal começa a consumir a pessoa por dentro. Kulp, o mago do navio, queima quase todo o seu poder para manter uma ilusão e garantir a sobrevivência deles na travessia. O navio emerge do outro lado envolto em fogo de dragão.
Baudin, o prisioneiro que mal falou durante toda a viagem, joga-se sobre Felisin para protegê-la, e os dois caem juntos no mar. O navio, o resto da tripulação, Heboric, Kulp: todos se espalham, com destinos desconhecidos por enquanto.
Felisin e Baudin chegam à costa de Sete Cidades, e é aqui que o segredo dele aparece. Ele não é um prisioneiro comum. Na verdade, é um Talon, uma ordem secreta que respondia a Dançarino, o imperador-assassino que morreu ao lado de Kellanved. Ele foi colocado ao lado de Felisin pela própria irmã dela, Tavore — a general que a mandou prender e vender para as minas. Baudin foi o seu guarda de corpo oculto esse tempo todo, protegendo uma garota que não fazia ideia de que estava sendo protegida. Quando Felisin descobre isso, ela não se sente salva. Sente-se traída num nível ainda mais profundo e o expulsa.
Essa reação só faz sentido se você lembrar do que as minas de otataral já tinham feito com ela. Felisin entrou naquelas minas como uma filha da nobreza e saiu de lá como alguém construído quase inteiramente por mecanismos de defesa. O otataral é a chave para entendê-la: é um minério raro que anula a magia, extraído por escravos justamente porque nenhuma feitiçaria funciona lá dentro. Nenhum mago pode salvar você, nenhum labirinto pode alcançá-la; só existem a picareta, o calor e os homens ao redor. Felisin sobreviveu àquele mundo usando durhang, um narcótico que anestesiava a dor, e vendendo o próprio corpo por proteção. Num lugar sem magia e sem lei, a única moeda que resta é o que o seu corpo pode comprar de quem é mais forte. Isso não é uma falha moral fantasiada de tragédia. É um mecanismo de sobrevivência frio e específico: o durhang trazia anestesia, e a anestesia dava o distanciamento necessário para continuar respirando mais um dia. Mas isso também queimou a capacidade dela de confiar em qualquer ajuda genuína. Quando se revela que Baudin a protegia por lealdade a Tavore, e não por interesse ou acaso, ela não vê isso como bondade. Vê como mais uma pessoa exercendo poder sobre ela sem o seu consentimento. Ela o rejeita porque aceitá-lo significaria admitir que precisava ser salva — e admitir isso seria mexer em tudo o que as minas fizeram com ela e que ela tenta desesperadamente não sentir.
Ela, Heboric e Kulp se reencontram, sem Baudin, a quem ela julga morto para sempre. Mas o reencontro dura pouco: o próprio Torvelinho, a tempestade literal que dá nome à rebelião, engole o grupo e o enterra numa cidade do primeiro império perdida sob a areia. As mãos de Heboric, decepadas desde a sua excomunhão muito antes disso tudo, estão agora marcadas com um poder estranho. Ao tocar nas ruínas enterradas, ele recebe memórias e fragmentos da história diretamente na sua mente. O que vem à tona é um ritual antigo que deu errado: uma tentativa de Ascensão por forças Soletaken e D'ivers, interrompida pelos T'lan Imass — os mesmos "guardiões imortais" que aparecem sempre que a história toca nas suas feridas mais antigas. Heboric está virando um receptáculo para a memória do mundo, e isso o destrói aos poucos, mesmo enquanto o preenche com conhecimentos que nenhum vivo deveria carregar.
Eles sobrevivem à ruína subindo e descendo despenhadeiros íngremes que deveriam ser impossíveis de escalar. São as mãos espectrais de Heboric que tornam isso possível, com uma força sobre-humana, tateando a pedra como se os dedos ausentes tivessem se tornado algo mais. Eles são resgatados por um comerciante chamado Nawahl Ebur, que oferece comida e abrigo. Mas ele se revela exatamente o tipo de predador sobre o qual a história vive avisando: um D'ivers, um bando de ratos com rosto de homem rico, mantendo os mortos como servos. Ele mata Kulp e quase mata Heboric e Felisin.
E é aí que Baudin aparece de novo.
Ele tinha sido deixado para morrer, mas volta para lutar sozinho contra o comerciante D'ivers e outro Soletaken em forma de urso ao mesmo tempo. Ele não tem nada a provar e tudo a perder. Ele vence, no sentido de que Felisin e Heboric sobrevivem. Mas não vence em nenhum outro sentido. Queimado quase além do reconhecível, ele se arrasta até Felisin e morre na sua frente. Ao morrer, demonstra uma ternura que ela nunca se permitiu imaginar que ele tivesse. A máscara do prisioneiro brutal e silencioso finalmente cai quando não precisa mais proteger nada. Esse é o golpe mais cruel que a história reserva para ela: a única pessoa que a amou sem condições foi a mesma que ela já tinha expulsado uma vez. E ela só descobre a verdade sobre ele no exato momento em que o perde para sempre.
Destroçada pelo luto, ela e Heboric perambulam pelo interior do deserto de Raraku e tropeçam em Leoman e num enorme guerreiro Toblakai. Eles estão guardando algo antigo: o cadáver de Sha'ik e, ao lado dele, o Livro de Dryjhna, o texto sagrado da rebelião. O próprio Torvelinho fica estranhamente calmo, como se segurasse a respiração. Felisin, esvaziada pela raiva e pela perda exatamente do jeito que a tempestade parece querer, aproxima-se do corpo quase sem pensar. Leoman e o Toblakai se ajoelham. Eles acreditam estar vendo Sha'ik renascida.
Pense na crueldade disso por um segundo, porque resume toda a jornada de Felisin numa só imagem. Uma garota vendida como escrava pelo próprio governo, devastada pelo durhang, por abusos e pelo luto, caminha em direção ao corpo de uma profetisa morta. E o deserto responde entregando a ela uma coroa feita inteiramente daquilo que fizeram com ela. Neste mundo, a Ascensão muitas vezes se alimenta disso: não da virtude, mas da ferida. Não da escolha, mas da matéria-prima que o trauma deixa para trás quando não sobra mais nada para reconstruir uma pessoa.